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AINDA SOBRE A PEC 241: PROFESSORES DIVERGEM SOBRE A OCUPAÇÃO DA UESC


Na manhã de terça-feira (25), o Blog do Gusmão teve acesso à mensagem do professor Guilhardes Júnior, coordenador do colegiado de direito da UESC, que declarou apoio à ocupação do Campus Soane Nazaré, em Ilhéus.

Guilhardes se dirigiu aos docentes contrários à ocupação. “Respeito a posição dos colegas, mas é também preciso lembrá-los que possivelmente a maioria aqui estudou na UESC pública e gratuita, conseguida assim, na luta, na mobilização”, escreveu em referência ao movimento de estadualização da universidade no início da década de 1990.

Daqui a menos de dois meses, lembrou Guilhardes Júnior, “estaremos comemorando 25 anos de criação da UESC, que não nos foi dada de graça. Naquela época jovens como eu e Júlio éramos chamados de desocupados e alienados. O sonho de uma universidade pública e gratuita se tornou realidade graças àquelas lutas. Hoje a batalha é outra, os tempos são outros, mas sim, nesses jovens eu vejo, de forma positiva, o futuro repetir o passado”.

A mensagem nos levou a pedir que mais professores da UESC se manifestassem sobre a ocupação e a PEC 241, tema central do movimento estudantil nesse momento.

O professor Pedro Germano, também do curso de direito, acredita que os estudantes deveriam usar outras formas de protesto. “A universidade é um espaço acadêmico, no qual deveria imperar a possibilidade do debate franco entre ideias opostas, fornecendo subsídios para a tomada de posição por parte dos estudantes. A ocupação, ao cerrar as portas do espaço, restringe a participação apenas para aqueles que concordam com a causa do protesto, que a meu ver deveria ocorrer por outros meios”, explicou ao Blog do Gusmão na noite dessa terça-feira (25).

Germano também nos respondeu sobre a Proposta de Emenda Constitucional 241, que considera “uma opção difícil e dolorosa” para “tentar o reequilíbrio das contas em déficit desde outubro de 2014 e envolvidas na malfadada ‘rolagem da dívida'”. Segundo o professor, a rolagem implica em juros maiores para a dívida pública quando o Estado gasta mais do que arrecada num ano.

Para ele, é “certo que a continuação da ‘rolagem da dívida’ significaria uma catástrofe e o aumento dos tributos. Além de inábil para o fim almejado, sufocaria a atividade econômica e, logo, o aumento das receitas públicas”. Por isso o governo optou pelo teto das despesas, “sendo que os gastos com saúde e educação terão um aumento para 2017 e, a partir desse ano, o piso constante (art. 104)”. Conforme o professor, nesse ponto a PEC não descumpre os artigos 198 e 212 da Constituição.

Pedro Germano, no entanto, fez ressalvas sobre omissões da proposta aprovada ontem em segunda votação pela Câmara dos Deputados.  “A PEC poderia conter meios mais drásticos de contenção de gastos em relação às despesas de investimento, cargos comissionados, verbas de gabinete e de publicidade e, principalmente, uma auditoria da dívida pública”, avaliou.

Outros dois professores de direito da UESC, Luana Rosário e Lauricio Pedrosa, responderam ao Blog do Gusmão.

Conforme a professora, muitos economistas alertam que o tipo de ajuste fiscal da PEC 241 é resultado de um “diagnóstico convencional, ultrapassado e comprovadamente ineficiente” sobre as alternativas para a recuperação econômica de um país.

Luana Rosário citou o professor Felipe Rezende, do Departamento de Economia da Hobart and William Smith Colleges – NY/EUA. Rezende posicionou-se contra a PEC em audiência recente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Segundo ele, Grécia e Portugal sofreram com ajustes fiscais reconhecidos como equivocados até pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Diante desse tipo de avaliação, argumenta Luana Rosário, o povo brasileiro pode ser levado “a engolir uma escolha econômica equivocada, com grande déficit de legitimidade democrática e impactos nas garantias sociais da Constituição, pelo prazo de 20 anos”.

A professora é a favor da ocupação dos estudantes. “Aos que dizem que não dará em nada, que a PEC 241 será aprovada assim mesmo, eu digo que se assim for, não será com a conivência e o silêncio delas e deles. Haverá resistência e sonho. E digo que a história só foi transformada por sonhadores”.

Para o professor Lauricio Pedrosa, “nesse momento, a ocupação é uma forma de protesto socialmente legitimada, diante de um projeto ilegítimo, apresentado por um governo ilegítimo, que não dialoga com a sociedade nem respeita a vontade popular”. Ponderou que ao longo da história os protestos “sempre buscaram gerar certo desconforto na sociedade com o intuito de chamar a atenção para determinadas reivindicações”.

Pedrosa é contra as reformas da PEC 241. Entre outros pontos, critica a imposição de um ajuste fiscal rigoroso por duas décadas. “Representantes eleitos para quatro (ou, no máximo, oito) anos pretendem tomar decisões que limitam as políticas públicas pelos próximos 20 anos”. Segundo o professor, a medida ofenderia o sistema democrático, “que exige uma legitimação periódica de determinadas políticas públicas”. Também denuncia a falta de um debate amplo sobre mudanças com reflexos  para a maior parte da população.

O governo Temer quer a aprovação da PEC 241 no Senado até dezembro. Na opinião do professor Lauricio Pedrosa, caso consiga, o Congresso vai “violar frontalmente os pilares da Constituição Federal, que elegeu dentre seus objetivos fundamentais a erradicação da pobreza, a redução das desigualdades sociais e regionais, a promoção do bem-estar de todos, ou seja, a promoção da justiça social, cuja concretização exige uma importante participação do Estado”. (Blog do Gusmão)