As mortes nas cinco cidades
brasileiras mais atingidas pela Covid-19 somaram pelo menos 26.445 desde o
início da pandemia até o dia 25 de abril, um crescimento de 30% em relação à média
dos anos anteriores, de 20.384 durante as mesmas semanas. É esse o resultado de
uma análise exclusiva feita para o G1 pelo epidemiologista Paulo Lotufo, da
USP, com base em dados capturados do Portal da Transparência do Registro Civil
pelo engenheiro de software Marcelo Oliveira.
A diferença, de 6.061 mortes,
supera em 173% aquelas atribuídas à Covid-19 oficialmente até aquela data. No
período, os números oficiais falavam em 4.057 mortos pelo novo coronavírus no
país todo – 2.219 nas cidades analisadas. Houve, nessas cidades, no mínimo
3.842 mortes além das registradas por Covid-19, de acordo com a análise de
Lotufo, baseada no último dado disponível para o total de certidões de óbito
registradas nos cartórios do país.
O cálculo subtrai do total de
mortes a média histórica nos anos anteriores, para obter o indicador conhecido
entre os epidemiologistas como “excesso de mortalidade por todas as causas”.
Trata-se, como explica post da semana passada, do número mais relevante para
entender o impacto real da pandemia na sociedade. Não só revela a subestimação
nas estatísticas oficiais, mas também dá a medida de todos os efeitos do novo
coronavírus na saúde do brasileiro. “A pandemia desequilibra o sistema de
saúde”, diz Lotufo. “Amplia as mortes por diversos outros tipos de doença, como
ataques cardíacos ou acidentes vasculares cerebrais, além de gerar um custo
também pelo adiamento no tratamento de doenças crônicas.”
Nas cinco cidades objeto da
análise – São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus e Recife –, o excesso de
mortos foi, respectivamente, de 2.500, 1.219, 312, 1.376 e 655. Desses, foram
atribuídos à Covid-19 em cada uma das cidades, também respectivamente, 1.114,
382, 295, 246 e 182 (veja nos gráficos ao longo deste post). Para realizar o
cálculo, os dados de 2020 foram comparados à média municipal dos últimos quatro
anos. De 2016 a 2018, as informações são oficiais, do Sistema Único de Saúde
(SUS). Apenas em 2019, ano para o qual os números ainda não estão consolidados,
foram usados os dados também dos cartórios.
Além dessa ressalva
metodológica (que pouco altera a média), há uma outra mais importante: o atraso
nas informações disponíveis. Legalmente, há um prazo de 24 horas para a família
informar mortes ao cartório, mais cinco dias para o registro do óbito, além de
outros oito para as informações serem enviadas à Central Nacional de
Informações do Registro Civil (CRC Nacional).
Há, portanto, pelo menos duas
semanas de defasagem entre os dados informados no Portal da Transparência dos
cartórios e a realidade. Na prática, o atraso costuma ser bem maior. Mesmo em
grandes municípios brasileiros, como São Luís, Salvador ou Brasília, há demora
crônica. Nos cinco analisados, a agilidade é maior, mesmo assim os dados devem
ser vistos como um limite inferior do que ainda está por vir em termos de
contabilidade macabra.

