Há quatro
anos, a carteira assinada de Silvio Xavier, de 39 anos, deu lugar à
informalidade. Desempregado, passou a ganhar a vida como vendedor de balas nos
ônibus do Rio.
Nas últimas semanas, com as medidas de contenção do
coronavírus, a atividade informal se transformou numa luta pela sobrevivência.
Xavier, que nunca recebeu Bolsa Família, viu a renda cair de uma hora para a
outra. Ainda sem qualquer ajuda do governo para se proteger em casa, ele
resolveu se arriscar e voltar às ruas, contrariando as recomendações de
especialistas e autoridades de saúde.
“O café da
tarde foi suspenso aqui em casa. O da manhã não, porque ainda tenho que sair
para trabalhar e ganhar algum dinheiro. Mas a gente almoça mais tarde para
depois só jantar”, contou Xavier, na última quinta-feira, ao voltar para casa
após 13 horas nas ruas esvaziadas com R$ 28, menos do que ganhava antes da
crise para formar uma renda média mensal de R$ 1.200.
Xavier é um dos 5,4
milhões de brasileiros que devem entrar na extrema pobreza este ano por conta
da pandemia de coronavírus, segundo estimativa do Banco Mundial. A instituição
também prevê retração de 5% no Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2020, a
maior em 120 anos.
Se isso se
confirmar, o número de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia ou R$ 145
por mês (o Banco Mundial usa câmbio diferente do atual para o cálculo porque
considera a comparação do poder de compra entre os países), no país aumentará
de 9,3 milhões para 14,7 milhões até o fim de 2020.
A taxa de pobreza extrema
chegaria a 7% da população, o maior patamar de miseráveis desde 2006, quando
7,2% dos brasileiros viviam nessas condições. Parte desses “novos pobres” nunca
recebeu benefícios do governo, e agora precisam de ajuda.
Xavier, que mora com
a mulher e três filhos numa casa alugada na Favela da Maré, na Zona Norte, se
inscreveu para receber o auxílio emergencial de R$ 600 por três meses oferecido
pelo governo, mas ainda não recebeu. Enquanto espera, recebe mantimentos da
organização Gerando Vidas, que apoia desempregados.
Epidemiologistas
e a Organização Mundial da Saúde (OMS) defendem o isolamento social dos que
podem ficar em casa como o caminho para enfrentar o coronavírus. Especialistas
afirmam que é preciso encontrar meios para amparar os mais pobres para além da
renda básica prometida por três meses diante das consequências econômicas da
pandemia.

